quarta-feira, novembro 20

A Reforma do Calendário Gregoriano (Pate I)

No final do século III os judeus finalmente formam um calendário muito preciso com relação às fases da lua. De acordo com ele, a Páscoa judia na época do Concílio de Nicéia ocorreria entre 21 de março e 18 de abril. Esta data de 21 de março leva em consideração a Pascalia Alexandrina assinalando a data mais precoce de ocorrência da Páscoa a 22 de março. Com base nisso vê-se mais uma vez que, a base fundamental das decisões de Nicéia foi a celebração da Páscoa necessariamente depois da Páscoa judia. Isto é assinalado pelos pascalistas alexandrinos com uma precisão excepcional. E por isso, 21 de março é a data mais precoce da páscoa judaica, e não a data do equinócio, como normalmente afirmam os debatedores católicos romanos. Ao mesmo tempo, é difícil de sustentar, que a Pascalia Alexandrina estava totalmente indiferente, em seus cálculos, ao equinócio da primavera. Pode-se encontrar indicações quanto a isso, no sétimo cânon apostólico, que claramente adverte tanto os bispos quanto presbíteros quanto à comemoração da Páscoa junto com os judeus e antes do equinócio da primavera. Este fundamento pré-Nicéia está relacionado, sem dúvida, com o simbolismo teológico da eterna vitória da Luz sobre as forças das trevas. Exatamente por isso a Festa da Ressurreição de Cristo precisava ser demarcada depois do equinócio, quando na natureza vê-se a supremacia do dia sobre a noite.

A Pascalia alexandrina não faz disto um objeto de culto. Comportam-se assim somente os católicos no tempo do papa Gregório XIII. Porém, para os pascalisatas ortodoxos o importante não é o astronômico, mas o metafísico sentido da celebração da vitória da luz sobre as trevas. A vitória da Páscoa da Ressurreição sobre a morte. Por isso, o fundamento canônico: “A Ressurreição de Cristo deve ser celebrada necessariamente depois da Páscoa judaica (Pesach)” tornou-se fundamental e imutável desde o tempo de Nicéia. Os católicos, porém, queriam, com a data retroativa e o caminho da clara mistificação, “explicar” a essência dos cânones do Concílio de Nicéia. Tratava-se de colocar na boca dos Padres a sua própria, de natureza herética, as bases relacionadas com a determinação do momento da celebração da Ressurreição do Senhor. O momento regulador para os reformadores passou a ser o dia do equinócio da primavera, depois do qual no primeiro domingo antes da lua cheia da primavera deveria, segundo eles, se comemorar a Páscoa de Cristo. Desta maneira, surgiu a total “astronomização” dos cálculos pascais.

Satisfazendo a precisão astronômica já no século XVII a Igreja Católico-Romana começou a infringir o fundamento central de Nicéia celebrando a Páscoa no dia da Páscoa judaica ou mesmo antes dela. E isto aconteceu nos anos 1609, 1617, 1625, 1636 e etc. Esta estranha e insensata infração do antigo estilo e o salto para frente do dia 4 para o dia 15 em 1582 conduziu não apenas à real existência de dois calendários na Europa, como também à intranqüilidade das comunidades locais além de insurreições armadas, particularmente, nos territórios alemães. Lá os protestantes denominaram a reforma de ímpia e o papa de Anti-Cristo. Além disso, vale relembrar que naqueles tempos as áreas rurais conduziam os trabalhos no campo segundo o ritmo determinado pelas festas da Igreja. O deslocamento de 10 dias provocou a desorganização na vida dos camponeses, que por muito tempo não puderam entender o que havia acontecido. Porém, a misteriosa toga científica da reforma começava a cair de seus ombros principalmente, quando se mostrava um dos elementos de pressão e repressão. O novo calendário foi imposto a todos os países dependentes do papa, e também ao imenso território da Rússia ocidental relacionado com Roma pela união de 1596. Conservou-se o testemunho do metropolita Pedro Mogila, que em sua obra Zapisk relembra o fazendeiro Erasmo Gerbort, que reuniu todo o clero de suas vilas e ordenou a eles celebrar segundo o calendário gregoriano. Quando se deparou com a recusa mandou torturar os oponentes e fechálos em um calabouço. Além da repressão, foi organizada uma ampla campanha de propaganda, à qual os defensores do antigo calendário ofereciam resistência. 
Ainda mais uma vez voltamos a atenção ao aspecto científico da reforma. Porque exatamente o ano tropical serviu como padrão para a comissão romana? Sabe-se, que os criadores do calendário Juliano, entre eles o astrônomo egípcio Sosigenes, conheciam o ano sideral. O ano sideral é o tempo total de uma volta da terra em torno do Sol, que leva 365 dias, 6 horas, 9 minutos e 9 segundos, e é 9 minutos e 9 segundos mais longo que o ano não-bissexto do calendário do imperador. Como na antiguidade era conhecido o ano sideral? Sabe-se que, desde o tempo de Ptolomeu (século II da nossa era) na idade média da astronomia por muito tempo afirmou-se o sistema geocêntrico, segundo o qual a terra permaneceria imóvel no centro do universo e o sol e os demais corpos celestes girariam em torno do nosso planeta. Com tal compreensão do mundo a própria idéia de ano sideral é de um modo geral, sem sentido. Trata-se de que, o sistema de universo de Ptolomeu difundiu-se somente no final do século V e início do século VI. Entretanto, na época de surgimento do calendário Juliano nos meios científicos gozava de popularidade a teoria do matemático e astrônomo grego Aristarco de Samos (século III de nossa era), que por sorte pode-se chamar de antecessor de Copérnico. A mesma idéia do movimento anual da terra em torno do sol gozava de grande popularidade entre os pitagóricos, para os quais chegou do Egito. Por isso provavelmente o ano, posteriormente chamado pelos astrônomos de sideral, foi o modelo para o ano Juliano. Desta maneira a comparação do ano tropical com o ano Juliano, isto é, o que fizeram os reformadores, fica sem sentido. Porque os participantes da comissão elaboradora do calendário compararam seu novo ano apenas com o ano tropical? Desta vez tudo se esclarece rapidamente.

O papa Gregório XIII e seus colaboradores eram adeptos do sistema ptolomaico. Isto significa, que o ano tropical era para eles não uma grandeza astronômica convencional, mas um tempo real autêntico, ao longo do qual o sol gira em torno da imóvel terra. Para eles o ano sideral simplesmente não existia. Logo depois os fatos astronômicos da sua existência tornam-se heresia. Desta vez o debate ia longe demais e consigo questões não teológicas – basta relembrar o destino trágico de Giordano Bruno e Galileu. Resumindo – a comissão de reformadores do calendário era formada por pessoas de conhecimento de astronomia superficial e amador. Para os trabalhos da reforma foram afastados todos os notáveis astrônomos e “cronólogos” daquele tempo. Eles antiveramse em oposição às modificações estabelecidas. Eis aí ainda mais uma razão, a qual confere à reforma um caráter lastimável e provinciano. Representantes das universidades européias, entre elas a de Viena e a Sorbone, enviaram para a comissão suas observações, que concluía que o projeto da reforma era absurdo. Ainda que morto, um severo oponente da reforma foi, também, Nicolau Copérnico. A existência da sua descoberta abalava o “cientificismo” da inovação gregoriana. Fica claro, porém, que se o sol não gira em torno da terra, mas ao contrário, então o ano tropical não pode ser modelo para qualquer calendário que seja. Neste momento a “imprecisão” do ano Juliano apoiado no ano sideral esclarece-se sob uma luz totalmente diferente. Por isso, também, 33 anos depois da reforma a congregação do index dos livros proibidos com decreto de 5 de março de 1606 proclamou o seguinte: “Porque chegou à congregação informação, que a falsa doutrina dos pitagóricos totalmente oposta às Sagradas Escrituras, que Nicolau Copérnico apresentou no livro De Revolutionibus Orbium Coelestium já difundiu-se e conquistou muitos adeptos, este livro, de modo a evitar a difusão de tal estudo com a perda e prejuízo para a verdade católica está confiscado até o momento de sua correção”. 

Um pouco mais tarde João Kepler acrescentou: “Os cardinais retiveram a obra de Copérnico até o momento de sua correção, mas seria melhor dizer: até o momento de seu entendimento”. Assim uma conseqüência da reforma foi a tentativa de deter as idéias de Copérnico na Europa.

FONTE:

Boletim Interparoquial - Órgão Informativo da Diocese Ortodoxa do Rio de Janeiro, Olinda e Recife.
Igreja Ortodoxa Autocéfala da Polônia
JANEIRO, 2005.

Artigo publicado na revista Wiadomosci Prawoslawnej Diecezji
Bialystocko-Gdanskiej no.2(31)2002, publicada na Polônia de autoria de
Gienadij Mogliewcew, elaborado e traduzido para o polonês por Irena
Mojsewicz e Roman Danieluk.
Tradução - Arquimandrita Jerônimo

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